Dudu fala em ficar para sempre no Palmeiras: 'Isso é para poucos'

Dudu fala em ficar para sempre no Palmeiras: 'Isso é para poucos'

Quem vê Dudu transitando pela Academia de Futebol do Palmeiras consegue entender melhor por que o atacante acaba de recusar a fortuna oferecida pelo Changchun Yatai, da China. Ele não é só capitão do

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Quem vê Dudu transitando pela Academia de Futebol do Palmeiras consegue entender melhor por que o atacante acaba de recusar a fortuna oferecida pelo Changchun Yatai, da China. Ele não é só capitão do time e ídolo da torcida. É praticamente o dono da casa.
Nesta quarta-feira, entre os treinos da manhã e da tarde, o jogador recebeu a reportagem do LANCE! no centro de excelência como um legítimo anfitrião.

- Vamos fazer (a entrevista) onde? Vamos sentar ali? Tem cadeira para todo mundo - disse, apontando para a área de convivência ao lado do refeitório.

Dudu foi na frente, sentou-se em uma das cadeiras à mesa e ofereceu as outras aos dois repórteres do LANCE!. Sorridente e bem-humorado, deu 20 minutos de entrevista e passou mais 20 conversando informalmente. Estava tão à vontade que um funcionário do Palmeiras passou por ali e perguntou, brincando, se deveria lhe servir um café.

Nem parece o mesmo Dudu que, há três anos, ainda em seus primeiros dias de Palmeiras, atendeu aos mesmos repórteres em sua primeira entrevista ao LANCE! com muita timidez e respostas curtas, sem muito jeito para falar sobre o chapéu que o clube deu no Corinthians e no São Paulo para contratá-lo.

Depois de 166 jogos, 42 gols, 36 assistências, dois títulos e diversas propostas recusadas, Dudu não é mais o mesmo. O Palmeiras também não é mais o mesmo. Os dois cresceram juntos, em um casamento que ainda vai demorar para acabar. Se é que vai acabar um dia...

Nas linhas abaixo, Dudu explica a negativa para os milhões chineses, conta que conversa com o ex-goleiro Marcos sobre a chance de consolidar-se como ídolo no clube, fala da importância de Alexandre Mattos em sua trajetória e deixa um aviso:

- Só depende do Palmeiras. Se a gente se acertar em tudo aí, eu topo ficar aqui até acabar a carreira.

LANCE!: Você está se sentindo mais ídolo depois de recusar a oferta da China?
Dudu: Acho que é a mesma coisa, cara. O carinho deles (torcedores) por mim é muito grande, e eles também sabem o carinho que eu tenho pelo Palmeiras, como eu me sinto à vontade aqui, minha família... Gostamos muito de São Paulo e, principalmente, do Palmeiras.

Como você tomou a decisão de não ir para a China? O que levou em conta?
Era muito dinheiro, né, cara? Em três anos, eu iria ganhar praticamente R$ 60 milhões. É muito dinheiro, a gente sabe, mas aqui no Palmeiras eu estou bem. Como eu falei na minha entrevista, tenho um bom salário. Se eu ficar aqui até o fim do contrato (dezembro de 2020), vou ganhar um bom dinheiro e vou viver bem. Minha família vai viver bem, meus filhos vão viver bem. Conversei com a minha família, eles viram que para mim era melhor ficar aqui. Meus filhos (Pedro, 5 anos, e Cauê, 6) estão na escola. O Cauê tem um pouco de atraso na escola, na fala, e para ele é melhor estar aqui. E também tem a vontade de ficar aqui no Palmeiras, né? Eu sei que se tudo der certo nesse ano, se a gente ganhar títulos, com certeza no fim do ano vem outra proposta, seja da China ou de outro lugar. Mas, como falei, estou feliz aqui e espero continuar bastante tempo.

Os seus filhos gostam muito do Palmeiras, não é?
O mais novo é que gosta muito, frequenta o clube, faz escolinha lá. A gente fica feliz pelo carinho que eles demonstram ter no Palmeiras, ficam sempre vendo vídeos dos jogos no tablet. Fico feliz por isso.

Quando a proposta da China chegou, você conversou com os dois?
Eles ainda não sabem, né? São muito novos. Às vezes eu pergunto se eles querem ver o papai no Barcelona e eles dizem que querem ver no Palmeiras. Aqui é bom para mim, tenho meus objetivos e espero cumprir.

O fato de ser uma oferta de um mercado periférico também pesou?
Acho que sim. A gente quer sempre ficar no lugar que tem mais destaque. Aqui no Palmeiras tem mais destaque do que na China, na Ucrânia, nesses países. Hoje a gente vive uma realidade muito boa aqui no Palmeiras. Todo mundo quer jogar no Palmeiras, todo mundo quer ter esse privilégio de vestir a camisa do Palmeiras. E eu tenho esse privilégio. Jogo aqui, tenho o apoio da torcida, sou capitão do time. Isso é para poucos.

Você tem noção de que seu caso é raro no Brasil?
Desde quando cheguei aqui, em 2015, venho sendo um dos principais jogadores do Palmeiras, me destacando. O normal já era ter saído, ido para a Europa, mas meu pensamento está aqui no Palmeiras. A gente tem que ir para onde a gente vai ser feliz. A gente não sabe se vai dar certo indo para lá. Aqui eu sei como funciona o clube, como é o dia a dia, sei que o clube dá o melhor para a gente. Só tenho que retribuir isso dentro do campo. A torcida tem muito carinho comigo e, como eu falo sempre, só tenho que me preocupar em dar felicidade para eles.

Já está passando pela sua cabeça a chance de ficar até o fim da carreira?
Acho que sim. Sou muito novo, tenho 26 anos, muito para jogar ainda. Como eu falo, depende só do Palmeiras. Trabalhamos em um grande clube, com uma estrutura dessas. No mundo, acho que poucos têm essa estrutura. Só depende do Palmeiras. Se a gente se acertar em tudo aí, eu topo ficar aqui até acabar a carreira.

A trajetória do Marcos te inspira?
Eu até converso bastante com o Marcão. A gente morava no mesmo prédio, a gente sempre estava junto. Ele fala que não se arrepende em nada de ter ficado no Palmeiras, fez uma história bonita. A torcida tem carinho por ele e acho que vai ser assim para o resto da vida. Ficar marcado em um grande clube como o Palmeiras seria muito bom para mim. Meu plano é viver em Goiânia quando parar de jogar, mas vai ser bom voltar aqui em São Paulo e ter o carinho do torcedor, o torcedor lembrar da gente pelo que a gente fez no clube.

Você chegou a ouvir a opinião do Marcos dessa vez?
Dessa vez não conversei. Pedi opinião dos meus empresários, dos meus amigos, da família, mas partiu de mim mesmo querer ficar e construir uma história ainda mais bonita aqui.

Alguns torcedores fizeram montagens na internet lembrando de quando o Marcos recusou uma oferta do Arsenal para ficar no Palmeiras. Chegou a ver?
Eu vi nas redes sociais essa montagem. A gente fica feliz, né? Sei que tem muita coisa para conquistar aqui ainda. Conquistei a Copa do Brasil e o Brasileiro, que o clube não ganhava há muito tempo. Grandes jogadores passaram por aqui e não conseguiram ganhar. A gente conseguiu. É só o começo de uma grande história.

Me lembro da primeira entrevista que fizemos com você, em 2015. Você ainda muito tímido, falando pouco, olhando para o chão. Percebemos que você está muito mais seguro e à vontade aqui. A mudança de lá para cá é grande, não?
Acho que todo jogador quando chega em um clube fica mais na dele. Eu pude conquistar o carinho dos funcionários aqui no Palmeiras. Eu sinto o carinho de todas as pessoas que trabalham aqui. Eu sou um cara muito simples, converso com todos, cumprimento, dou bom dia e boa tarde para todo mundo quando chego. Vocês veem quando eu passo ali para treinar. A gente conquista as pessoas assim, com humildade, com o carinho que a gente demonstra por elas.

Com mais 13 gols, você vai superar o Vagner Love e se tornar o artilheiro do Palmeiras no século. Tem acompanhado essas marcas?
O Serginho (Sérgio Luci) e o Pedrão (Pedro Corrêa, assessores de Dudu) sempre mandam essas coisas para mim. A gente está aqui para entrar na história do clube. Se for para entrar na história, tem essas marcas para bater. Espero passar o Vagner Love nesses próximos anos.

Você também o maior artilheiro do Allianz Parque (22 gols) e em breve deve se tornar o atleta com mais jogos (tem 74 contra 78 de Prass). O que esse lugar tem de especial para você?
Não sei explicar isso. Batemos muito bem, eu e aquele estádio ali. Fiz gols importante ali nesses anos que estou aqui, virei o jogador que mais fez gol no estádio e agora posso virar o jogador que mais jogou. Fico feliz por esses recordes. Espero continuar bastante tempo aqui para alavancar ainda mais isso.

Você tem repetido que ainda tem objetivos aqui. Quais são eles? A Libertadores é o principal?
Acho que todo clube sonha em ganhar o título da Libertadores. A gente fica vendo, no ano passado o Grêmio conquistou. A gente tem um bom time esse ano, um grande treinador. Não que a gente não tivesse no ano passado, também tinha, mas não deu certo. Nesse ano começamos bem, com os pés no chão, e esperamos entrar fortes nessa competição, que vai ser uma das mais difíceis. Praticamente todos os times que já ganharam a Libertadores vão disputar esse ano. Vai ser difícil, mas temos confiança de que podemos ir bem.

E como é o seu papel na recepção dos novos contratados?
A gente sabe que eles estão entrando para a Família Palmeiras, como a gente fala aqui. A gente tem que deixá-los à vontade para que eles rendam como renderam em outros clubes. Procuro tratar todos bem, deixar à vontade. É o nosso papel. 

Quando viu o Lucas Lima com a camisa do Palmeiras, você achou estranho?
Nada, é tranquilo (risos). Isso é normal na vida da gente. Ele estava defendendo o clube dele e a gente defendendo o nosso, normal. Agora ele está aqui no Palmeiras e tenho certeza que vai dar a vida pelo Palmeiras, como já fez nesses quatro jogos. A gente espera que ele possa continuar nessa batida aí.

Conversaram sobre o passado?
Acho que tem que deixar para trás. Hoje ele está no Palmeiras, não tem que ficar lembrando do Santos. Tem que pensar no Palmeiras e esquecer o que passou.

Em meio àquela rivalidade com o Santos, teve alguma coisa que irritou?
Acho que nada. Era brincadeira deles, eles eram acostumados a fazer isso lá. Depois a gente ganhou um campeonato mais importante ainda em cima deles. É brincadeira sadia, não pode deixar sair do campo e ir para a rua. Acontecia de torcedores se matarem, brigarem na rua. Isso não pode acontecer.

Tudo o que você construiu aqui é mais do que imaginou?
Acho que sim. Nunca imaginei que iria chegar nesse status que tenho hoje aqui no Palmeiras. Sempre pensei que chegaria, faria uma grande temporada, conquistaria títulos, mas não do jeito que está hoje. A torcida gosta de mim, eu me identifico com o clube. Tenho só que agradecer a Deus por tudo o que estou vivendo, à minha família, que está sempre me apoiando nas minhas escolhas. Eles gostam muito do Palmeiras, da cidade, e estamos muito felizes.

Qual é a participação do Alexandre Mattos nisso tudo?
Tudo o que o Alexandre fala, pode acreditar. Comigo aconteceu tudo o que ele falou no primeiro dia em que sentamos para conversar. Aconteceu mesmo, de verdade. Ele falou que eu poderia virar um ídolo aqui, que iria chegar na Seleção Brasileira, que a gente conquistaria coisas grandes aqui. Está acontecendo. Fico muito feliz por isso, muito feliz pelo carinho que ele tem comigo. Não só ele, mas o Paulo Nobre também. Ele me ligou, me deu força para vir para cá, acreditou em mim. E eu acreditei no projeto. Quando vim para cá não tinha nada disso aqui (aponta para o centro de excelência), né? O clube estava em reformulação e eu acreditei no projeto. Vim para cá e hoje estou muito feliz.

O que o Mattos te falou que Corinthians e São Paulo não falaram?
Nos outros clubes não tinha projeto de reformulação. O Corinthians já estava feito, o São Paulo também. Os dois times estavam na Libertadores, estavam bem, tinham grandes jogadores. Acho que eu chegaria lá só para dar seguimento. Aqui a gente ia fazer uma reformulação, eu poderia ser um dos principais jogadores, como aconteceu. Se eu tivesse ido para o Corinthians ou para o São Paulo, não estaria como estou hoje. Aqui comecei do zero e fui crescendo, cada dia mais. Hoje, todos os jogadores querem jogar aqui e eu tenho o privilégio de ser capitão do time e ter o carinho do torcedor.

Você acha que até o Alexandre ficou surpreso com a sua recusa à China?
Acho que sim. Acho que ele esperava que eu batesse o pé para ir embora, como outros jogadores fazem. Batem o pé, falam que não vão treinar, isso e aquilo. Eu não sou assim. Sou um cara muito tranquilo, muito competitivo, que sempre procura o melhor. Eu tenho certeza que o melhor era ficar.

Ao anunciar que você iria permanecer, ele assustou muita gente. Pelo começo do discurso, parecia o anúncio da sua venda. Isso foi combinado?
Não! Muita gente estava falando que eu estava fazendo corpo mole para ir embora, que não tinha jogado bem em dois jogos, que estava querendo ir. Eu cheguei nele e falei: "Alexandre, eu não quero ir embora. Se eu quisesse ir, já teria ido em dezembro. Queria que você me ajudasse a falar para o pessoal que não estou fazendo corpo mole". Eu fico triste quando as pessoas falam isso de mim, que eu faço corpo mole. Nunca fiz corpo mole na minha vida, em nenhum clube. E no Palmeiras, que está sendo ainda mais importante para mim, eu sempre jogo dando a vida. Às vezes as coisas não vão bem na técnica e eu vou na vontade para defender essa camisa. Ele falou que iria lá comigo, que falaria que eu não quis ir. Não sabia que ele ia falar daquele jeito. Fiquei muito feliz, agradeci a ele e falei que estou muito feliz.

Quem falava sobre o corpo mole? Torcedores ou imprensa?
Alguns torcedores no meu Instagram. A gente sabe que não são todos, depois falaram até que foi torcedor de outro time. A gente fica triste pela torcida não reconhecer que estamos em começo de temporada. Eram só dois jogos. Alguns da imprensa também falaram. Em alguns programas falaram que eu estava pensando na China, com a cabeça lá na China, que a qualquer momento eu poderia ir. A gente fica triste por isso, mas passa.

E vão ter que te aguentar mais um tempo aqui, certo?
Acho também que são alguns caras da imprensa que são corintianos que falam isso. Eles não querem ver o Palmeiras bem. Eles querem ver só o time deles bem. Se fosse o Corinthians ou o São Paulo ganhando as quatro partidas que a gente ganhou, acho que eles estariam felizes.
 - Fonte: LANCE!Net