Famintos, desnutridos e desidratados: multidão de venezuelanos é mal recebida no Brasil e na Colômbia

Famintos, desnutridos e desidratados: multidão de venezuelanos é mal recebida no Brasil e na Colômbia

CÚCUTA, Colômbia — Durante as semanas mais recentes, Wilya Hernández, seu marido e a filha de 2 anos dormiram nas ruas imundas de Cúcuta, do lado colombiano da fronteira com a Venezuela. Embora a

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CÚCUTA, Colômbia —
Durante as semanas mais recentes, Wilya Hernández, seu marido e a filha de 2
anos dormiram nas ruas imundas de Cúcuta, do lado colombiano da fronteira com a
Venezuela.


 Embora a menina,
Antonela, fique sem algumas refeições durante o dia, Wilya não quer voltar para
a Venezuela. “Preciso de um anjo”, disse ela, contendo as lágrimas numa noite
recente. “Não podemos voltar, e não podemos ficar aqui”.


 É uma perspectiva
compartilhada por milhares que fugiram para Cúcuta, onde as dificuldades podem
parecer mais atraentes do que a situação vivida por eles em casa. A Venezuela
está mergulhada numa profunda crise econômica e política.

No ano passado, a
inflação superou a marca de 2.600%, de acordo com legisladores da oposição,
exacerbando a escassez aguda de alimentos e remédios
.

O país é agora
governado por uma Assembleia Constituinte, composta por aliados do presidente
Nicolás Maduro.

O Congresso, controlado pela oposição, foi posto de lado; a
suprema corte é formada por vários membros leais a Maduro, e a guarda nacional
recebeu ordens de reprimir duramente os protestos.

Conforme o
autoritarismo consolida seu controle sobre este país rico em petróleo, um
grande número de cidadãos está fugindo.

No segundo semestre de 2017, 210 mil
venezuelanos foram para a Colômbia, de acordo com as autoridades locais.

No Brasil, a entrada
de venezuelanos sobrecarregou cidades do estado de Roraima, no norte do país.
Estima-se que, até o fim do ano passado, 40 mil venezuelanos tenham se
instalado na capital do estado, Boa Vista.


A entrada de venezuelanos se
intensificou este ano, chegando às centenas por dia, levando o exército
brasileiro a mobilizar um contingente adicional para a fronteira.

O exército está
montando um hospital de campo em Roraima para oferecer ajuda básica aos
venezuelanos, muitos dos quais sofrem de desnutrição.

Mas as autoridades locais
se mostraram preocupadas com a possibilidade de a oferta de ajuda fazer de
Roraima um destino ainda mais procurado pelos imigrantes.

Na Colômbia, a
maioria daqueles que cruzam a porosa fronteira do país o faz a pé pela Ponte
Simón Bolívar, perto de Cúcuta, por onde funcionários da imigração dizem passar
cerca de 30 mil pessoas por dia. Algumas compram comida para levar para casa.

Outras pensam em ficar.

Cailey Domínguez, 25
anos, disse que seu plano era seguir até o Peru, onde mora sua irmã. Cailey, da
Ilha de Margarita, conseguiu poupar o bastante para pagar pelo passaporte e a
passagem de ônibus, embora muitos não tenham a mesma sorte.

 

Sem passaporte e sem
direito ao trabalho, milhares de venezuelanos estão pedindo comida e esmolas.


Quando há trabalho, na construção civil ou na venda de doces nos semáforos, o
pagamento é baixo. Um dia produtivo pode render 15 mil pesos colombianos, cerca
de US$ 5, gastos com comida, água e o direito de usar banheiros.

“Vendi meu cabelo
para alimentar minha menina”, contou Wilya, afastando os cachos e revelando a
cabeça raspada por baixo, acrescentando que agora os cabeleireiros andam com
anúncios pelas praças de Cúcuta dizendo que pagam em dinheiro pelo cabelo.


 Os venezuelanos
comentam a recepção fria que recebem dos moradores locais. “Para eles, somos
como ratos”, comentou Daniel Fernández, 20 anos, de Caracas, num terminal de
ônibus.

Freddy Muñoz, 30 anos,
de Maracay, Venezuela, vende atum em lata nas ruas. “Os motoristas não freiam
quando eu atravesso a rua”, disse ele, afastando uma meia suja para revelar um
calcanhar machucado, atingido recentemente por um carro que passava. “Eles
dizem, ‘volte pro seu país, veneco’”, acrescentou, usando o insulto empregado
contra os venezuelanos.

 Os policiais da
cidade, incumbidos de dispersar as aglomerações de sem-teto nos espaços
públicos, disseram que a grande maioria das pessoas detidas por crimes de rua é
venezuelana.

Miriam Posada, dona
de uma loja de peças de motocicleta perto de um sopão, lembra de quando os
venezuelanos conviviam confortavelmente com os colombianos do outro lado da
fronteira.

“Todos se davam bem,
e recebíamos clientes que vinham do outro lado”, disse Miriam, enquanto uma
fila de venezuelanos sem-teto começou a se formar diante da fachada de sua
loja.

 “Mas, agora, eles afastam a freguesia. Estamos ganhando menos a cada mês,
e teremos de fechar em breve se algo não mudar.”


 O presidente da
Colômbia, Juan Manuel Santos, viajou até a cidade na fronteira no início de
fevereiro para se reunir com prefeitos da região, a fim de debater maneiras de
lidar com o que ele descreveu como “um crescente problema que a Colômbia nunca
vivenciou antes”.


 Ele anunciou medidas
para conter a crise, incluindo uma força-tarefa especial para manter as pessoas
fora das ruas, além de promessas de auxílio e controle mais rigoroso na
fronteira.

Um programa que
concede residência aos venezuelanos que já estão legalmente na Colômbia foi
apresentado este mês.

Mas Wilya, o marido e a filha pequena, que não tiveram o
passaporte carimbado, correm agora o risco de serem deportados. “Queremos
seguir adiante”, disse ela. “Mas não temos mais nada”
.